

Interação medicamentosa está entre as maiores causas de intoxicação, vitimando principalmente a população idosa.
A combinação errada entre remédios e entre remédios e substâncias ou alimentos pode ser tão indesejável quanto prejudicial. De acordo com os dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), grande parte das intoxicações por medicamentos deve-se à interação medicamentosa.
As interações podem ser mais ou menos graves, como explica a farmacêutica Sérgia Maria Starling Mafra, professora da Faculdade de Farmácia da UFMG. Elas intensificam ou diminuem os efeitos de um medicamento ou, pior, podem agravar os efeitos colaterais do outro.
Entre as principais causas da ocorrência de interação medicamentosa estão a automedicação e a prescrição médica de vários medicamentos para serem tomados ao mesmo tempo pelo paciente. Segundo estimativas, os casos variam em até 5% para os pacientes que fazem uso de diversos tipos de medicamentos ao mesmo tempo e podem superar os 20% para pacientes que usam entre 10 e 20 tipos de remédios concomitantemente.
Portanto, grande parte do contingente de intoxicados é de idosos, uma população que convive com o que os especialistas chamam de polifarmácia. Maurício Wajngarten, diretor da cardiogeriatria do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que, no banco de dados do setor de geriatria do hospital, verifica-se que os pacientes tomam, em média e, ao mesmo tempo, entre cinco a seis remédios diferentes.
Para ele, individualmente, os medicamentos podem ser excelentes, mas, quando combinados, possibilitam diversas interações. "Tratar tudo ao mesmo tempo é arriscado. É preciso que o médico, junto com o paciente, priorize os tratamentos e se mantenha informado sobre as possíveis interações do medicamento que vai receitar."
RISCO Um estudo feito em 2007 com 155 idosos internados no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, identificou uma média de quatro interações potencialmente arriscadas por paciente. O efeito mais observado das interações foi o aumento de risco de sangramento e hemorragia em 36% dos casos. "Isso está relacionado ao uso de anticoagulantes", afirma Juliana Locatelli, farmacêutica clínica da unidade de geriatria do Albert Einstein, que realizou o estudo.
Outro trabalho feito em 2007, na Santa Casa de São Paulo, mostrou que 41% dos idosos tomam remédios inadequados ou em doses excessivas para a faixa etária. O responsável pelo estudo, Milton Gorzoni, coordenador da geriatria da entidade, acredita que cada remédio que se acrescenta ao paciente aumenta em 10% a chance de interações indesejáveis. “Isso significa que o idoso tem entre 30% e 50% mais riscos de problemas relacionados aos remédios.”
O perigo também aumenta por características próprias do envelhecimento. “A metabolização das drogas é diferente no idoso. Geralmente, a eliminação das substâncias é feita pelos rins e o aumento da idade causa alterações na função renal", afirma o especialista.
O grupo de maior risco é o de pessoas com mais de 85 anos, de baixo peso, com seis ou mais doenças, que tomam 12 ou mais doses diárias de remédios e que já sofreram algum efeito adverso de medicamento anteriormente.
Para a farmacêutica Sérgia Maria Starling Mafra, professora da Faculdade de Farmácia da UFMG, as doenças causadas pelo uso de múltiplos medicamentos por idosos é um dos grandes problemas da saúde pública.
Cerca de 17% dos medicamentos usados por idosos são considerados desnecessários, ineficazes ou perigosos (relação custo-benefício desfavorável). Segundo Anthony Wong, considerado um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, o maior problema, nesse caso, não é a automedicação, mas, sim, a consulta a vários especialistas, que prescrevem isoladamente.
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